quinta-feira, 3 de setembro de 2015

O Oitavo Dia



                                                  O Oitavo Dia

O Oitavo Dia, Um atalho no tempo.
Carlos Reis Agnii
O Oitavo Dia – um Atalho no Tempo narra história de Tágoras, garoto portador do transtorno de ausência, que trazia consigo um dom especial. Sua paranormalidade desperta o interesse de uma secreta organização, que não poupa esforços em mantê-lo sob seu domínio, pois ele seria o principal elemento para a realização de obscuro plano.
Ao sentir que seu filho corria grave perigo, sua genitora – de notável sensibilidade – desafia tudo e a todos para protegê-lo, envolvendo-se em perigosa fuga, quando eles passam a vivenciar misteriosos acontecimentos. Logo, os fatos que pareciam apenas mera coincidência, se revelam como inevitáveis nos seus destinos.
O dom especial de Tágoras o tornava habitante de duas dimensões no tempo, em que, através do sonho, ele se transportava a lugares insólitos, que pareciam existir apenas em sua imaginação.
Durante a fuga, são acolhidos por membros de uma mística fraternidade, onde Tágoras conhece um ancião que se torna seu mentor, ajudando-o a despertar seus dons, até então latentes em seu subconsciente.
Ao folhear as páginas deste romance, o leitor descobrirá um universo raro e especial, que provocará sua imaginação, através de mensagens de amor, perseverança, coragem e fé, transmitidas em cada capítulo.
CAPÍTULO I
Em uma tarde fria, de 1986, numa cidade do interior paulista, um garoto, que vivia o amargo transtorno de ausência, buscava, nos cômodos mais remotos e silenciosos de sua residência, o lugar perfeito para adaptação de seu mundo particular.
Em passos vacilantes, ele segue pelo corredor do primeiro andar e, ao encontrar a porta entreaberta, ele a adentra. Após trancá-la, deixa a chave cair sobre o tapete. Em seguida, vai em busca de um espaço perfeito e, lentamente, ele se senta em um canto mais sombrio.
Naquele momento, o silêncio tinha uma relação com o espaço escuro do dormitório, envolvendo tudo. Só não prendia a velocidade dos pensamentos daquele
garoto, que rompiam o tempo, encaixando todas as dimensões em um mundo estritamente particular e de profunda imensidão: o mundo de Tágoras.
O brilho daquele olhar distante fitava a extremidade do quarto sombrio. Os detalhes mais sutis da parede eram vasculhados, como se nas rugas dos minúsculos detalhes, deixados pela tinta da decoração, existisse um universo a ser contemplado. Os olhos de Tágoras seguiam os movimentos de seus dedos, que acariciavam a parede, como se procurassem estrelas ou um mapa astronômico, que indicasse um caminho para outra constelação. Ele estava alheio a tudo a sua volta. Na ausência do mundo objetivo, ele vivia seu mundo paralelo, distanciando-se de tudo. Nada poderia despertar sua atenção, nem mesmo a solidão poderia atingi-lo, pois era impossível acompanhar seus pensamentos. Em sua volta, era como se os vãos daquela casa não existissem e o quarto estivesse vagando em algum lugar no infinito. O tempo e o espaço pareciam ter sido divididos ao meio, pela lacuna da realidade paralela do mundo ausente do garoto.
No canto do quarto, em alguns momentos ele fazia movimentos estereotipados com as mãos, como se tivesse encontrado um grande achado, o “eureca” de sua busca. E assim, o tempo, que tinha vida e curso lá fora, conspirava com os ponteiros dos relógios. Estes, viciados em criar labirintos de ansiedade nos simples mortais, faziam passar os minutos e as horas sem atingir o universo ausente da mente de Tágoras, que desconhecia a lógica e relacionava-se com o absurdo.
Enquanto lá fora, na suposta realidade da existência, onde todos são dependentes do clarão e calor da estrela que chamamos de Sol, o dia aproximava-se do crepúsculo. No corredor da casa, uma jovem mulher, de expressão firme e olhar incandescente, fitava cada canto a procura de algo ou alguém, vasculhando todos os vãos da casa. A cada minuto que passava, ela demonstrava em sua face uma visível tensão. Logo, sua voz começou a chamar pelo nome de Tágoras.
Demonstrando preocupação, ela deixa a casa, percorrendo o jardim numa procura em vão, pois seu chamado não era ouvido. De forma inquieta ela retorna a casa e passa a chamá-lo pelo carinhoso nome que todos conheciam:
– Tago! Tago! Onde estás? Responde-me!
E assim, aquela mulher seguia chamando-o, mesmo sabendo que ele jamais responderia. Foi naquele exato momento, que ela se direcionou para o segundo piso, procurando-o nos cômodos da casa. Dirigiu-se até o aposento do garoto e não o encontrou, mesmo após ter olhado debaixo da cama e dentro do guarda-roupa – seus lugares preferidos, onde ele se enclausurava por horas em sua ausente realidade.
Deixando o quarto, na lentidão de quem tenta ouvir algum ruído ou um sinal que a levasse ao encontro dele, ela deparou-se com a porta do seu dormitório, fechada. Naturalmente, ao levar uma das mãos à maçaneta, percebe que esta estava trancada. Súbita suspeita a invade e sua voz, sem hesitar, quebra o silêncio:
– Tágoras! Tágoras! Abre a porta! Tu estás aí? Por favor, ouve-me!
A reciprocidade, em forma de resposta ao seu clamor, não correspondeu. Movida pelo medo que a agitava, ela passou a bater à porta, impulsivamente. E o desespero momentâneo passou a construir, em seu imaginário, múltiplos acontecimentos. Lembrou-se de uma chave extra que estava em algum lugar em meio aos objetos na escrivaninha, em outro vão da casa. A procura torna-se ofegante. Gavetas foram jogadas ao chão, espalhando objetos. O tempo passava e a preocupação
aumentava, alimentada pela suspeita, criada pelo medo de que algo horrível poderia ter acontecido com o garoto.
Movida pela tensão do momento, ela dirige-se ao telefone e seus dedos, trêmulos, passam a discar, na tentativa de entrar em contato com alguém que pudesse ajudá-la a sanar seu desespero. Logo, inicia-se ofegante diálogo:
– Alô! Alô! Por favor, preciso falar com o senhor German Suami.
Após curto espaço de tempo, sua ansiedade é invadida por uma voz bastante íntima aos seus ouvidos. Essa mesma voz lhe extrai palavras:
– German! German! Tágoras trancou-se em nosso quarto, levando as chaves consigo. Estou desesperada! Preciso de ti. Temo que alguma coisa lhe tenha acontecido. Estou aguardando-te. Por favor, não demores!
Segura de que, logo, não mais estaria só, ela deixa a sala, indo em direção ao quarto, na tentativa de arrancar algum ruído causado pelo garoto. Passaram-se vários minutos. Próxima à porta, suas palavras eram em vão, como se falasse a esmo. Vencida pelo cansaço, senta-se ao chão e chora, com a alma sitiada por amargo sentimento, pois, naquele momento, sua vida parecia passar como um filme na tela de seu ser. E, como tudo que a tocava profundamente, Tágoras era o elo perdido de suas incógnitas, quem ela mais amava e, também, a quem menos conseguia compreender.
Os primeiros anos da vida de Tágoras renasceram na aguda imagem de suas lembranças, trazendo o amargo momento, ao sentir a sua torturante rejeição. Ele rejeitava os seus abraços e reagia a suas carícias, tal qual algo repugnante a tocá-lo, construindo, assim, uma distância carregada de angústias e incógnitas, como se ela buscasse, em seu ser, uma forma de reclamar, a Deus ou a algo superior, o porquê. A distância do olhar do garoto era semelhante a um espelho que não refletia a imagem de sua mãe, que tanto o amava. Sua voz ficara, compulsivamente, carregada de soluços e lágrimas, que escorriam em sua face. Era como se sua pele não tivesse sensibilidade, pois não existe inferno mais amargo, do que quando amamos e não podemos tocar o ser amado. É semelhante a ficar com nossa carne sem pele e nossa alma a flor da pele.
Naquele momento, fitando tudo a sua volta, ela fala:
– Filho, eu sei que não sabes o imenso abismo em que me lanças com a tua distância. Faze-me acreditar e, em alguns instantes, desacreditar de tudo, como se a dor fosse a única realidade e o desejo, apenas uma ilusão criada para o nosso consolo. No final, restam só o medo e a solidão. É como se a vida não fosse, realmente, a vida. E tua ausência só me faz sentir um triste vazio.
Logo, um barulho repentino denuncia a entrada de alguém chamando sua atenção, despertando-a do momento introspectivo que a fez ficar distante e próxima de suas mais obscuras lembranças. Os passos firmes que vinham em sua direção quebraram o gelo do silêncio. E sua voz, entrecortada, se expressa de forma ofegante:
– German, que bom que tu vieste!
Surpreendido por vê-la sentada ao chão com a face inundada pelas lágrimas, aquele homem de olhos profundos e de expressão forte abandona lentamente a pasta que conduzira e apressa os passos em sua direção. Envolvida por profunda angústia, ela não tinha forças para se erguer. Tomando uma de suas mãos e levando-a aos lábios numa expressão de carinho, e agachando-se bem próximo, ele a abraça, transmitindo naquele gesto, o profundo laço que os envolvia. O impulso daquele momento extraiu
compulsivos soluços daquela mulher que, por alguns longos minutos, buscava respostas para sanar o inferno particular do seu eu. A voz de German Suami rebenta dos lábios com a força e suavidade de quem poderia trazê-la da obscuridade de seus conflitos.
– Inatiran, Inatiran, por que te torturas tanto? Nosso filho precisa de nós, e tu não podes transmitir insegurança para ele. Mesmo que ele não reaja à expressão de tristeza ou alegria dos que estão ao seu redor, eu quero que saibas que, tanto eu como Tágoras, precisamos muito de ti.
Tocando a sua face com sutis carícias, continua:
– Não lamentes pelo nosso filho, pois ele é a maravilha da genética humana. É um Ser puro que nunca será contaminado pelo nocivo ódio da humanidade.
Delicadamente, ele a levanta. E com leve sorriso, tenta tirá-la de toda tensão que, naquele momento, a envolvia. As palavras ganham formas na voz de Inatiran:
– Eu só queria encontrar uma resposta para o silêncio que distancia Tágoras de todos nós. Quem sabe, algum dia, Deus me responda.
German a deixa, indo em direção à pasta que continha seus aparatos de pesquisa. Abrindo-a, ele apanha as chaves-reserva que trouxera consigo. Ao chegar frente à porta, ele fala:
– Não busques a resposta em Deus, pois não a terás. Não ajas como os tolos que, em seus lamentos, questionam a Deus seus infortúnios, ou como os que lhes atribuem um momentâneo sucesso.
Voltando a face para a mulher que o ouvia sem resposta, continua:
– Se Deus controlasse a jogatina de perdas e ganhos da humanidade, dos míseros seres mortais que somos, acredite Inatiran, isto me distanciaria de qualquer sentimento de fé no Deus dos mortais, que apenas se lamentam.
E assim, a chave encontra um propósito no interior da fechadura. Com gestos firmes, as mãos de German impulsionam a porta, abrindo-a e trazendo à tona todo o interior do quarto. Com uma das mãos ele aponta suavemente para o canto do dormitório e diz:
– Ali está nosso filho.
Inatiran repousa uma das mãos no ombro de German e fala:
– É como se ele não estivesse aqui.
German retruca:
– Ele realmente não está.
Com suavidade, German direciona o seu olhar àquela mulher que demonstra, na face, a tranquilidade pairando sobre o seu ser, ao ver a silenciosa imagem de Tágoras, em meio aos inertes objetos que decoram o quarto. German dirige-se a Inatiran e a beija, expressando nobreza naquele simples ato de carinho. No instante seguinte, ele a deixa, adentrando lentamente o aposento. Seus passos parecem durar uma eternidade, no curto espaço de tempo que o mantém, fisicamente, distante de Tágoras. Ao se aproximar daquela insólita criança, ele ajoelha-se bem próximo e, em seguida, senta-se ao seu lado, contemplando seu distante olhar que, por sua vez, parecia ter absorvido todos os elementos da vida.
A face de Tágoras estava voltada para minúsculos detalhes na parede. German repousa a cabeça o mais próximo possível de Tágoras, a ponto de ambos sentirem o calor de suas respirações. Inicia-se, assim, uma espécie de ritual, que atraía todos os elementos sensíveis da magia do universo. A beleza conspirava com a ternura do encontro de duas almas a habitarem em mundos diferentes. O silêncio da criança, envolto de mistério, parece dilatar as pupilas dos olhos de German, ao navegar no abismo indecifrável do mundo de Tágoras, que o encantava com a enigmática sedução, que toda inocência traz consigo, naturalmente. German sente-se convidado a compartilhar um mundo nunca antes explorado: o subconsciente daquele ser.
A distância não ficava presa aos limites das regras estabelecidas pelo espaço geográfico, pois todos os cálculos tornavam-se mera utopia. Não existia distância nem margens como um ponto fixo para aproximação. Tudo era um grande vácuo a consumir todas as lógicas. O absurdo era a única ponte que poderia ligar o sentimento de German ao mundo ausente de seu filho.
Em certos momentos, ele sentia o que todos nós por alguns instantes buscamos: fuga para um mundo ausente que criamos. Essas fugas são tão sutis que chegam a se camuflar para nós, criadores desses psicoesconderijos. Naquele instante, se ele procurasse um exemplo, perder-se-ia em meio a tantos.
E, voltando para si mesmo, ele se questiona em seus pensamentos: “São por acaso os achados arqueológicos, os valores que deixaram marcas como rastros no tempo, a minha fuga? Ou até mesmo simples hábitos corriqueiros que passam despercebidos de um questionamento mais apurado, a fuga mais comum e viciosa de todos nós, ditos normais?”
German ergue uma das mãos, tocando, suavemente, os cabelos negros de Tágoras, acariciando-os com a suavidade de quem rega orquídeas no tempo exato do desabrochar, mas sente-se surpreendido pela voz daquele garoto:
– Pai, vais tocar piano para mim?
Sem hesitar, German o abraça movido pela profundidade de toda energia de seu sentimento, pois uma conspiração, que transcende ao som de todas as palavras, interligara suas almas em um único espaço, sendo compreendido apenas por aqueles que se perderam no abismo indecifrável, chamado amor.
As palavras ganharam forma nos lábios daquele homem de cabelos grisalhos e de olhar forte, refletindo o brilho de toda sua emoção, nas lágrimas que se acumulavam em seus olhos como um espelho de intenso reflexo.
– Filho, tu deste um grande susto em tua mãe. Eu a encontrei chorando. Ela te ama e ainda te carrega no ventre psíquico.
Olhando, fixamente, para Tágoras, ele continua:
– Se ela pudesse, ficaria grudada em ti como uma leoa que protege sua cria. Ela só não compreende que tu possuis teu mundo, como todos os filhos têm os seus e os pais muitas vezes não querem aceitar. Só que tu vives em dois mundos paralelos. Duas dimensões impossíveis de serem compreendidas por pessoas comuns.
O olhar de Tágoras parece fixar-se nos movimentos dos lábios de seu pai, alheio a tudo que lhe era dito. German continua:
– Eu noto, nas palavras de tua mãe, que ela busca em Deus uma explicação para o que ainda não compreende e acha anormal. O que ela não sabe é que tu és a resposta. Para mim tu és a maravilha do achado ao qual chamamos de humanos.
O som do piano impregnava-se em cada espaço da casa. Havia uma harmonia perfeita: a fusão da noite com as notas a invadirem os ouvidos sensíveis, dos que contemplavam a beleza sem forma e de poder transcendental que só a música possui. As mãos daquele que provocava o surgimento da perfeita melodia, faziam seus dedos bailarem em uma coreografia de ritmos e gestos, criando, na atmosfera do ambiente, uma energia a unir todos os elementos da beleza e da arte, que faz o tempo se calar numa partícula de eternidade. A face de Tágoras refletia a fascinação de quem se preenchia com a mística do poder daquele som. Seus lábios desabrochavam com um leve sorriso. Seus ombros acompanhavam, velozmente, as mãos ávidas por extrair o que havia de mais sutil e grandioso, que só os mensageiros da melodia conseguem externar em seus sentimentos. Sentado numa poltrona, seu pai acompanha cada gesto, compartilhando a sutileza que envolvera a todos naquela sala, celebrando-se o laço inviolável que os unia de forma harmoniosa. Após algum tempo a campainha do telefone os invade roubando a atenção de German que repousava entregue ao deleite daquele momento introspectivo. Sua esposa anuncia-lhe ser um colecionador de raridades antigas, ao telefone. Ele se dirige ao aparelho e inicia um diálogo em árabe, chamando, com isso, a atenção de Inatiran, que o observa com olhar questionador.
Após algum tempo, ele repousa suavemente o aparelho, deixando transparecer, inevitavelmente, um brilho de satisfação em suas expressões faciais. Aproximando-se de Inatiran, ele a abraça com a delicadeza de quem precisa compartilhar a emoção emergente, gritando em seu ser. Sem poder conter-se, seus lábios rebentam ao som de sua voz, a pronunciar uma palavra carregada de força:
– Consegui! Consegui o que buscávamos durante anos!
Invadida pelos gestos expressivamente eufóricos de German, Inatiran cobra-lhe imediata explicação para toda mudança de clima que ocorrera de forma tão imediata. German a toma pelas mãos, levando-a até uma das salas, distanciando-se do som do piano e a convida para sentar. A aflição era notória nos olhos de Inatiran que, por sua vez, buscava sanar suas incógnitas que dilaceravam sua alma com angustiosa curiosidade. Os olhos de German fitam, profundamente, as pupilas de Inatiran, que pareciam estar dilatadas.
– Eu consegui investidores para meu projeto de escavação em um sítio arqueológico, localizado no Peru. Enfim, após tanto tempo, iniciarei importantíssima busca pelos achados arqueológicos no planalto da antiga cidade de Názaca, achados que podem esclarecer para a humanidade toda obscuridade perdida no véu do passado. Este é o grande momento de minha vida.
Inatiran, naturalmente, deixa aflorar nos lábios um sorriso de extrema satisfação.
– Quem são esses investidores? E qual o interesse de levarem uma expedição de arqueólogos para o remoto vale da antiga cidade de Názaca?
Bruscamente, German levanta-se e, com os gestos vestindo todas as suas palavras, tenta sanar o questionamento:
– São pessoas fascinadas em desvendar mistérios, colecionadores estrangeiros de obras antigas e objetos insólitos. Querida, são homens muito ricos e poderosos, empresários em negócio onde poucos têm acesso. Entre eles há árabes, sírios, ingleses e
até brasileiros. Inclusive aquele saudita que nos foi apresentado no jantar após a última conferência de que participamos. Após longa conversa, ele demonstrou muito interesse em minhas ideias. E me propôs novo encontro para tratar, exclusivamente, de um grandioso projeto: enviar expedições de cientistas de diversas áreas para as antigas ruínas do Peru. E essa ligação apenas reforça a integração dos meus planos de pesquisa: explorar os restos da antiguíssima cidade de Názaca. Como sempre te falei, estão escondidos no Peru, sob a terra, segredos que poderão levar antigos conceitos e dogmas a serem repensados. O interesse deles é sacudir, com certeza, o atual universo científico. E o que sempre foi visto como teoria absurda irá assumir o topo das discussões no meio. Há outros interesses, tanto financeiros, quanto de diversas ordens, mas o que realmente importa é que eu lá estarei fazendo parte de seleta equipe de cientistas. Querida, será um marco em nossa história!
German silencia, deixando transparecer que seus pensamentos, por hora, já se haviam integrado aos vales e planícies verdes do território peruano.
Subitamente, German é envolvido pelo calor do corpo da mulher que se esforça em todos os sutis e minuciosos momentos para compreendê-lo, buscando desvendar os utópicos labirintos de seu universo de pesquisas.
Semelhantes a correntes, os braços de Inatiran o envolvem em caloroso abraço, simbolizando a unificação de suas almas, que estavam ligadas pela energia dos opostos, conspirando em uma agregação perfeita em suas vidas. A reciprocidade incitava uma das mãos daquele incansável homem das ciências, a acariciar os cabelos daquela mulher, que o deixava perdido em uma dimensão onde a ciência não tinha bússola nem cálculos para explicar.
O brilhante e úmido olhar de Inatiran vasculha toda a face de German e de seus lábios, aos murmúrios, ela deixa fluir o som de suas palavras:
– A felicidade invade-me ao ver tuas expressões irradiarem a força e o entusiasmo que há tanto tempo não via nos teus olhos, como se me rejuvenescesse vinte anos. Sinto-me transportada aos corredores da universidade onde nos conhecemos e eu, como aluna, me apaixonei por ti.
– Este é um grande momento. Acredito que se está iniciando uma grande etapa em nossas vidas.
Logo, naquele instante, a voz de Inatiran ganha outro tom:
– Mas é preciso ter cautela, pois sinto algo que parece esmagar-me por dentro, em meio a tudo isso. Desculpe-me por minha intuição, pois não quero ser pessimista. Eu sei o quanto significa para ti o reconhecimento de tuas teses e pesquisas. O que não posso fazer é deixar de alertar.
Por alguns instantes, a voz de Inatiran é aprisionada num silêncio, enquanto German encontra-se ávido pelos anseios que movem seus sonhos.
– Eu sei que os riscos são grandes, mas eu não posso estagnar a fluência natural de minhas buscas por temer o risco que surgirá no caminho; terei cautela, querida, eu te prometo.
As mãos de ambos se entrelaçam pela força do magnetismo que os envolve, não calando, porém, a intuição que teima em deixar trêmulos, os lábios daquela mulher.
– Tu não podes esquecer que esse mesmo senhor árabe demonstrou um anormal interesse em Tágoras. Nosso filho foi visado durante toda a noite naquele jantar. Os
demais homens que o acompanhavam mantiveram olhares ávidos e fizeram comentários entre si. Nós não entendemos, tentamos esquecer, mas tudo agora faz sentido e parece que veio à tona. Por favor, não penses que é fantasia de minha cabeça ou uma loucura qualquer. O que não posso negar é que eles deixaram a impressão de que Tágoras tem algo muito importante que pessoas comuns não conseguem ver. Não é porque ele é autista. Não é isso que quero dizer. O que senti nos olhares daqueles homens é que existe um enigma e que Tágoras foi a surpresa daquela noite ou então que eles já o esperavam. Há alguma coisa muito misteriosa em tudo isso. Por isso peço que tenhas cuidado, pois o nosso filho pode ser peça importante de interesses que desconhecemos. Não podemos esquecer que ele é indefeso. German, ele é tudo que temos!
i Escritor Romancista e ativista sócio cultural atual presidente da Associação Filarmônica Carlos Gomes- ASFICAG. contato@carlosreisagni.com.br www.carlosreisagni.com.br, carlosreisagni@hotmail.com
Telefones: 75- 91235641 /75-88342889.

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