terça-feira, 2 de agosto de 2011

Lágrimas de um Espermatozóide(Cap.3)



Capítulo III

Era noite, eu estava sentado num canto do quarto, lendo anotações feitas no caderno que me fora entregue por aquele rapaz, que muito me ensinou. Folheava-o, quando me deparei com um de seus profundos pensamentos: “Quero acreditar que irei acordar amanhã e as nuvens negras que pairam sobre minha cabeça não mais existirão; e amanhã será um novo dia, porque ainda pinto dentro de mim, na tela dos meus sentimentos, um coração abstrato, embriagado de paixão pela vida. Lúcido, caminho dentro da noite, em meio à escuridão dos inconscientes, buscando encontrar, entre densas neblinas, a fonte de água límpida, para saciar a sede dos meus pesadelos, na água viva dos sonhos de Deus”. Ao terminar de ler o pensamento, lembrei-me das palavras do mestre Sédrik, que em mim ficaram guardadas: “A minha missão é encontrar a Luz em meio à escuridão”. Pude observar, neste pensamento, a ansiedade da busca e a necessidade de encontrar a Luz. Eu acredito que esta é a razão primária de todo ser: encontrar a Luz em meio à escuridão de sua consciência. Este é o caminho que arduamente todos nós temos que trilhar: tocar a infinita cortina escura de nossa cegueira e rasgá-la para ver de outro lado, dentro de nós mesmos, o clarão da Luz que nos leva à eternidade. Passaram-se sete meses após ter o privilégio de conhecer um ser tão notável como Sédrik. Aprendi a ver valores nas coisas simples e construir personalidade edificada numa filosofia de vida. Passei a me relacionar de maneira mais intensa comigo mesmo. Abri portas dentro de mim e naveguei num profundo sentimento. Lá, encontrei liberdade para observar e aprender a dar o melhor de mim a cada dia ou, pelo menos, tentar tornar-me melhor. Voltei a folhear o caderno, parando em outro pensamento que me chamou a atenção: “Sou matéria lançada ao fogo; sou fumaça, apenas fumaça; folha, a natureza me esculpiu com sentimentos, formas e cores; o tempo me queima e tornar-me-ei cinzas; refletirei, na fumaça, a força que eleva a minha imaginação. Estou em meio da noite e não há lua nem estrelas; só vejo o sol conspirando, com a escuridão, o nascimento de um novo dia. Eu, um simples mortal, receio cair ao chão e acordar, no outro dia, temendo a lucidez que me cobra a lógica e a razão. Que razão? A vida? Eu preciso de uma razão para viver.” E, naquele momento, ouvi os galos cantarem e percebi que já era muito tarde, dirigi-me ao meu quarto, deitei-me sobre as almofadas e adormeci segurando o caderno. Envolvi-me em um sonho, no qual eu estava numa carruagem em companhia de dois homens com vestes brancas, tendo suas cabeças envoltas por capuzes. Um deles estirou-me uma das mãos, passando-me um manuscrito. Enquanto observava vilarejos e planícies por onde passávamos, numa carruagem imprimindo bastante velocidade, percebi que me encontrava num século por volta da Idade Média e que também usava túnicas. Ao chegarmos ao nosso destino, pude observar que era um mosteiro. Dois monges aproximaram-se e nos saudaram com gestos de reverência. Convidaram-nos a entrar. Caminhamos por um longo corredor iluminado por tochas. Ao chegarmos a uma grande porta, encontramos outro monge: um guardião, que nos pediu para pronunciar a palavra secreta. Um dos monges, que me acompanhava, pronunciou enigmática palavra – a qual não posso revelar. Aquela grande porta abriu-se e adentramos um grande salão, onde muitos monges aguardavam o início de um evento. Sentando-me com aqueles que me acompanhavam, pude observar a sombria claridade das luzes das tochas, dispostas em lugares estratégicos. Soou, então, o gongo e entrou no salão um monge subindo a um lugar de destaque; tinha nas mãos um manuscrito, que desenrolou e começou a ler em voz alta: “Meus caminhos não são vossos caminhos; meus pensamentos não são vossos pensamentos; Deus é perfeito e nós somos uma cópia imperfeita”.
Dirigindo-se a uma tocha, apanhou-a e nos mostrou, dizendo:
– Há quanto tempo o fogo aquece nossos corpos e conforta nossas almas? Quem de nós pode decifrar a sua fórmula? Os alquimistas levaram metais inferiores várias vezes ao fogo, em suas experiências, com o sonho de transformá-los na quinta essência – o ouro. O Cosmo, alquimista da vida, nos tem levado ao fogo das várias existências para transformar-nos, não no amor, mas na própria essência.
E, mais uma vez reverenciando-nos, assentou-se em meio aos outros monges. Naquele momento, alguém me convidou, acenando. De posse dos manuscritos, dirigi-me à parte de destaque do salão. Saudando a todos, abri um dos manuscritos e comecei a ler: “A clausura condena, o amor liberta. Subestimei os meus desejos e me enclausurei, negando-me a compartilhar as minhas carências com a carência dos lábios de uma mulher; ser que sana o vazio desta existência. Neguei-me aos meus desejos. Somos, por acaso, fortes ou são as nossas fraquezas que fortalecem a nossa continuação?”
De repente, uma grande mudança no sonho subestimou o tempo e o espaço. Já não mais estava no mosteiro. Tudo aconteceu muito rápido. Encontrei-me numa planície em meio a muitas árvores. Senti que era primavera, pela suavidade do clima. Caminhava, trazendo em uma das mãos uma rosa. Logo notei, à distância, alguém aproximar-se. Ao chegar mais perto, percebi que era Helen, com trajes que remontavam a séculos passados. Logo estávamos próximos. Olhando em seus olhos, dei-lhe a rosa e, envolvendo-a num cálido abraço, pude ouvir o murmurar de sua voz, clamando por meu corpo. Beijamo-nos com muita ansiedade. Com carinho, comecei a desnudá-la. Eu era só sede e ela a fonte de água límpida que saciaria meu ser sequioso pela vida. Beijando seu corpo, ultrapassei todos os limites. Como abelha, acariciei as pétalas da flor do seu sexo, e molhado no néctar dos seus desejos, percebi que já não éramos dois, mas apenas um. Éramos a fome e o próprio saciar. Nós nos encaixávamos perfeitamente em nossas ansiedades. Na busca de saciar as nossas carências, ouvi a sua voz trêmula e ofegante contar-me uma história:
– As tuas mãos, que acariciam a minha face, esculpirão no tempo a continuação do nosso sentimento, subestimando a transformação dos vendavais do destino, que a tudo separa.
E naquele momento começou a ventar muito forte. Uma ventania tão agressiva que chegou a separar os nossos corpos, como se todos os acontecimentos de uma vida estivessem resumidos apenas naquele nefasto vendaval. Tentamos segurar-nos pelas mãos. Gritamos, mas nada pôde impedir a separação, pois tudo se separa. Num grito, acordei no meio da noite:
– Não!...
Assustado, fiquei em claro, observando a madrugada passar. As lágrimas escorriam pela minha face. Em dado momento, levantei-me sufocado, questionando-me com perguntas que gritavam em meu ser, mas não havia respostas. Dirigi-me à porta; ao abri-la, olhei para a escuridão da noite e comecei a caminhar a esmo. Fazia muito frio. O orvalho molhava-me, e a brisa forte soprava em minha face, trazendo som suave e misterioso que impregnava os meus ouvidos. Ao me dar conta, já estava bem distante de casa, quando fui surpreendido por uma luz à distância, em área bastante isolada. Sem pensar, fui aproximando-me e logo percebi que era uma fogueira. Um homem que se aquecia, segurando uma caneca, me ofereceu um pouco de chá, passando a falar em seguida:
– Vem e senta-te ao lado da fogueira. Ela aquecerá o teu corpo e confortará a tua alma.
Eu então lhe disse:
– Só um observador do céu noturno conhece o mistério do fogo e o enigma da noite.
Ele respondeu:
– Tudo que sei, aprendi com a noite.
– Com a noite?
– Ela é a minha amante, a minha única companhia. É preciso que te harmonizes com seu silêncio. Sente sua quietude e ela te responderá a todas as tuas dúvidas; revelará todos os segredos do mistério dos teus sonhos, pois a noite é eterna e nela estão registrados os acontecimentos mais sutis desta existência. Nela estão marcadas as lágrimas dos esmagados pela solidão; nela ecoam os gritos dos torturados que foram e são vítimas da ignorância. Sim, nela eu também posso ouvir os gemidos de prazer daqueles que se amam e, sem perceber, trilham caminhos da transformação. Nela ainda posso ver aqueles que estão em claro, acariciados pela saudade da distância com que o destino os separou. Aprendi, com seu silêncio, que tudo se separa. Fascino-me com a lua, sua nudez de luz, excita o uivo dos lobos que contemplam a majestade do silêncio.
De repente, os primeiros raios de luz do dia começaram a surgir. A fogueira se apagou em cinzas e o homem se levantou, apanhou a viola e uma grande mochila, dizendo-me:
– Tenho que ir, meu amigo, observar as ansiedades da coletividade em mais um dia.
Eu fiquei parado ali, sem conseguir me mexer, olhando a imensidão do céu, vivendo o sentido das cores da luz do novo dia. Podia ver a face de Deus preparando mais um cenário que formava sons e vida, como um artista que expande eterna aquarela nesta tela, palco da nossa continuação, em que seremos atores de histórias que virão. As nossas lembranças são filmes que nos ensinarão a folhear as páginas dos livros esquecidos, onde encontraremos respostas para as incógnitas dos obstáculos que virão no amanhã. E o dia aconteceu. Depois de contemplar o amanhecer, comecei a caminhar lentamente. Ao atravessar algumas ruas, notei uma barraca de frutas. Aproximei-me, comprei uma maçã e passei a comê-la ao lado da barraca. O barraqueiro, surpreendido pela presença matutina de um comprador faminto, perguntou-me:
– Tu conheces a história de um rio que secou, depois que os moradores de um povoado, à sua margem, o deixaram, em busca de novos sonhos na cidade grande?
Respondi-lhe que não, e perguntei-lhe:
– O que tem a ver a vida da nascente de um rio com aqueles que lhe cercavam?
O barraqueiro me disse:
– Ele transbordou várias vezes. Podíamos sentir que ele chorava e, quando a nascente secou as suas lágrimas, a vida daquele rio se esgotou. Acredito que aqueles, que da pesca saciavam sua fome, eram a razão da vida da nascente daquelas águas. Sinto-me como aquele rio: sem vida. Pois é preciso ter uma razão, um objetivo para estar vivo e eu não sei se estou. Meus amigos morreram; meus irmãos já não mais estão aqui. Eu sou apenas um velho, sufocado pelas lembranças, semelhante àquele rio: sem razão para estar aqui. – Olhando nos seus olhos abatidos, falei:
– Tu viveste até agora para saciar minha fome com esta maçã. E tantos outros que aqui chegarem terão as tuas frutas; saciarão as suas almas vazias com a tua experiência e as tuas lembranças.
Trêmulo, ele pegou em minhas mãos, dizendo:
– É bom poder estar vivo e ouvir estas palavras. Digo-te que aprendi muito, hoje.
Naquele momento, chegou uma criança para comprar frutas. Eu a coloquei no colo e disse-lhe:
– Existe um velho homem que saciou a minha fome e ainda viverá muito para saciar a tua e a de muitas outras pessoas.
E da face daquele homem, marcada pelo tempo, nasceu um sorriso. Deixando a criança a sorrir, retirei-me lentamente. Sem notar, já caminhava há quase uma hora em direção à montanha, denominada “Luzes da Cidade”, localizada a alguns quilômetros de distância. Nesse ínterim, passaram-se alguns dias que eu encontrara o “observador noturno”. Lembrei-me de vários acontecimentos e, principalmente, de que ele havia me ensinado a escutar o silêncio da noite e dele poder obter respostas para meus sonhos e para todas as minhas perguntas. Contemplei o amanhecer como se o tivesse visto pela primeira vez e descobri o verdadeiro sentido da formação do cenário de um novo dia. Vi, com a visão da observação, as cores e as formas do amanhecer. Sim, eu vi a face de Deus. Caminhei em direção àquela montanha para observar o dia, esperar o pôr-do-sol e, em seu crepúsculo, contemplar o nascer da noite para sentir a plenitude dos seus mistérios. Como fazia muito calor, retirei a camisa e amarrei-a na cintura. Estava com sede, com muita sede. Por sorte, avistei de longe um riacho que ficava fora da estrada. Desci um pequeno despenhadeiro e atirei-me naquelas águas cristalinas que ali estavam, como um presente do Cosmo, sem me importar que molhassem todas as minhas vestes. Mergulhei minhas mãos e bebi, saciando, assim, a minha sede. Agradeci ao Deus do Universo por aquela nascente ter rebentado o solo e brotado esse riacho, com a única razão: servir. Naquele instante, um sutil pensamento invadiu-me, deixando-me paralisado a observar as águas do riacho que, como um espelho, o seu brilho refletia a imensidão dos céus. Lembrei-me então das palavras do mestre Jesus: “Eu sou a água da vida e aquele que beber de mim nunca mais terá sede”. De repente, fui despertado por um barulho. Era uma carroça que ia passando na estrada imprimindo grande velocidade. Depois de algum tempo, ouvi o som de um tombo que chamou a minha atenção. Subi correndo a encosta em meio aos arbustos do despenhadeiro. Chegando à estrada, vi uma carroça sem uma das rodas e quase tombada, havia um homem ao seu lado tentando erguê-la. Ao ver-me, fez sinais de forma apreensiva. Notando seu desespero, corri em sua direção. Ele me falou:
– Jovem rapaz, por Deus, ajude-me!
Sem hesitar, passei a ajudá-lo. Apanhamos a roda que se havia soltado. Em seguida, começamos a colocá-la no eixo com muita dificuldade, conseguindo consertá-la. E ele me disse:
– Minha mulher está grávida. Eu a estou levando para o acampamento de sua família, em uma fazenda muito distante.
Logo notei pelo seu sotaque, que ele era cigano. Subindo na carroça apressadamente, ele falou-me que sua esposa daria à luz naquele dia. Por esse motivo, deveria apressar-se, pois a sua primeira mulher morreu de parto e ele temia que o mesmo viesse a acontecer com a sua nova companheira. Desejei-lhe, então, boa sorte. Ele prosseguiu sua viagem e eu continuei a minha solitária caminhada. Por volta de quinhentos metros de distância, a carroça parou. Aproximei-me rapidamente e o cigano, com a expressão tensa, desceu da carroça desesperado e falou-me:
– É inacreditável, meu amigo. A roda deu um grande estalo. Tenho que tentar consertá-la novamente.
Naquele momento, ouvimos o gemido de sua esposa. Imediatamente ele aproximou-se dela, notou que as dores aumentavam e que ela já estava entrando em trabalho de parto. Assustado, ele voltou-se para mim:
– Ajude-me! Ela não pode ir mais longe e pode vir a ter a criança aqui mesmo.
Atônito, perguntei-lhe em que poderia ajudar.
– Consiga água neste caldeirão, enquanto apanho lenha para acender uma fogueira.
Enquanto a água aquecia, os gemidos e os gritos daquela jovem mulher aumentavam. Ele, desesperado, me chamou:
– Venha, entre na carroça. Iremos precisar de sua ajuda, pois já deve estar chegando a hora.
Olhei para a face agonizante daquela mulher, quando me perguntou:
– Quem és tu?
– Sou um amigo. Estou aqui para ajudá-los. Nós vamos conseguir.
Ela, então, segurou minha mão com firmeza, enquanto seus gritos ecoavam, demonstrando-se fragilizada pelas dores. Enquanto isso, seu marido se preparou para fazer o parto, que logo se iniciou. Segurei-a pelos ombros, enquanto ela agarrou-se com muita força em meus braços, procurando seguir o ritmo das contrações. Naquele momento, eu tentava passar-lhe toda a energia. Logo, ouvi o grito daquele que se encontrava dividido pela tensão e emoção, no momento da chegada do seu rebento:
– Está nascendo!
E da face daquela mulher escorreram lágrimas que transbordaram dos seus olhos. Seu rosto, contraído de dor, logo se desfez num sorriso, ao ver aquele ser tão esperado nas mãos do pai. Com leves palmadas, ele tentou despertá-lo para a vida, mas, sem conseguir, começou a sua aflição. A mãe, ao perceber que seu filho não reagia, passou a chorar de forma desesperadora. Não sabendo o que fazer, fui tomado de pavor. Por intuição, tomei a criança nos braços levando imediatamente os lábios às suas narinas, soprando-as, sem poder conter minhas lágrimas, que molhavam toda sua face. Naquele momento, um choro forte rebentou do seu ser, rompendo o silêncio de nossas angústias, em um grito para a vida. Envolvido pela emoção daquele momento, entreguei a criança nas mãos do pai que, tomado por lágrimas, ergueu-a para o alto, dizendo:
– Este é meu filho! A minha continuação!
Subitamente, invadiu-me a lembrança das palavras do monge que esteve em meu sonho: “As fraquezas dos nossos desejos fortalecem a nossa continuação”. Enquanto isso, o pai preparava a criança, entregando-a à mãe que, ansiosa, esperava-a para acolhê-la em seus braços. Em seguida, amamentou-a, saciando assim, sua primeira necessidade. Era evidente o seu sorriso e o seu olhar de satisfação por estar cumprindo sua missão: ser mulher e tornar-se o portal cósmico desta existência. Aquele homem colocou uma das mãos no meu ombro, fitando-me, com os olhos brilhando de satisfação, enquanto falava:
– Reforçaremos a roda da carroça e você virá conosco, pois faço questão que compartilhe comigo de um vinho fresco que nos espera no acampamento.
Após ter consertado a carroça, partimos estrada a fora. Percorremos quase todo o caminho sem palavras. De repente, ele quebrou o silêncio, dizendo:
– Senti medo de que os vendavais da vida separassem, de mim, a mulher que mais amo, e este filho que é uma dádiva de Deus.
Com leve sorriso, acrescentou:
– Nessa estrada da vida há muitos mistérios. Na noite anterior tive um sonho, no qual encontrei na estrada um monge que ajudou minha mulher a dar à luz e, também, soprou nas narinas da criança, despertando-a para a vida. Acredito que você, meu amigo, não é um monge, mas é alguém que Deus enviou para ajudar-nos.
E complementou:
– A vida é mesmo um grande mistério!
Já perto do acampamento, aproximaram-se de nós dois homens montados a cavalo. Ao chegarem até a carroça, um deles perguntou:
– Quem é o estranho que está contigo?
O cigano respondeu:
– É um amigo. Vão e preparem aquele vinho fresco, pois nasceu mais um homem em nosso povo.
Os dois ciganos saíram em disparada gritando de alegria. E ao entrarmos no acampamento, fomos recebidos com festa. Aquele povo de costume estranho me cumprimentava cheio de alegria. Um deles se aproximou de nós com canecas transbordando de vinho e nos serviu, dizendo:
– Brindemos o nascimento de teu filho, Nicolas.
Com a caneca cheia, Nicolas a ergueu em um brinde a mim, dizendo:
– Este rapaz me ajudou em um momento difícil. Salvou meu filho. Ele agora é um irmão entre nosso povo e será sempre bem-vindo em nosso meio.
Um deles gritou:
– Brindemos à vida!
E todos gritaram, num coro eufórico:
– Viva! Viva! Viva!...
Nicolas convidou-me até sua barraca, ofereceu-me algumas frutas, passas e mel, passando-me a contar a sua história. Logo descobri que ele era o líder de seu povo. Depois de ouvi-lo atentamente, levantei-me e disse-lhe:
– Gostaria de ficar mais tempo contigo e com teu povo, mas tenho que ir.
Nicolas colocou as mãos nos meus ombros:
– Não sei qual o teu destino, mas te desejo boa sorte e te dou um dos meus melhores cavalos para que sigas a tua caminhada.
Saímos a caminhar pelo acampamento, ele me mostrou os seus cultivos e suas criações, quando se aproximou de nós um velho, com um cajado, que pegou em minha mão, dizendo:
– Apressa-te, pois logo o sol começará a se pôr e a montanha fica um pouco distante.
Assustado, questionei-o:
– Como sabes que estou indo para a montanha contemplar o pôr-do-sol?
O velho me respondeu:
– Quem aprende a linguagem do silêncio da noite, nunca mais é o mesmo. Aquele que nasceu hoje em nosso povo foi batizado com tuas lágrimas, pois ele veio para libertar essa gente da clausura da inconsciência, trazendo no futuro, uma visão maior. Quanto a teus sonhos não são simples sonhos; são lampejos de tuas vidas passadas. O Cosmo, eterno alquimista desta existência, nos dosou com a porção certa, no tempo e espaço, para que nos encontrássemos.
Sem poder conter as lágrimas, ele me abraçou, dizendo:
– Acompanhar-te-ei até a montanha.
Despedi-me de Nicolas e de seu povo. E cavalgamos em direção ao pôr-do-sol. 
CONTINUAÇÃO>> 

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