sexta-feira, 29 de julho de 2011

Preâmbulo do romance Lágrimas de um Espermatozoide

Estava caminhando em meio a transeuntes que se deslocavam de um lado para o outro, ansiosos, com pressa de chegar a algum lugar. De repente, parei, olhei para todos os lados e percebi que eu não tinha lugar nenhum onde ir. Estava só, no meio de uma multidão. E, sem destino, sentei-me ao canto, n’um canto da vida, observando aqueles que eram levados por suas ansiedades. Nesse momento, passa uma criança chorando; tomado por uma ligeira emoção, eu a questiono:
– Por que choras?
Ela nada me responde, continuando seguindo pela calçada.
Em meio as minhas observações, pensei comigo mesmo: “Quantos de nós queria ter a sua coragem, para que alguém ouvisse os nossos gritos”.
Naquele momento, fiquei olhando à distância. E nos meus pensamentos vi a trilha dos meus passos se desmoronando sobre mim, cobrando que me erguesse, pois o amanhã começa na ansiedade do agora. Mas eu me senti só... Encolhi-me naquele canto, quando fui invadido por um profundo pensamento: “A lágrima da dor aduba a raiz da personalidade, desabrocha a consciência para uma maior evolução interior”. Nesse momento as lágrimas escorrem em minha face como tinta descristalizando o meu profundo silêncio, ecoando em mim um grito calado, rasgando no vazio um incansável por quê, umedecendo a minha face como orvalhos transcendentais, a resposta que me cobra a interpretação da alquimia desta breve existência. Nos meus pensamentos, começo a caminhar na árdua estrada do autoconhecimento de mim mesmo e confronto-me com o temor do medo. Minhas fraquezas questionam-me, levando-me a um ilusório apego a transitória existência. E as minhas ansiedades, tolas ansiedades, negam a inevitável participação do tempo nos pequenos e grandes acontecimentos de minha vida. Meus desejos e meus sentimentos não me ouvem. Minha carência insana teme morrer no vazio dessa solidão. E em todos os espelhos em que vejo a minha imagem, tu és o único espelho em que a minha imagem tem liberdade para amar. Então, vem pigmentar a transparência da minha alma com a tonalidade forte da tua sensibilidade. Assim como as cores se buscam numa aquarela para encontrar a liberdade, na tela em que pinto a Vida, preciso de tua suavidade como cor, para dar forma à minha imaginação. Logo, questiono-me e me enclausuro, escalando o ponto mais alto do meu silêncio. E, lá, ouço a melodia do vento, que fala:
– Por que te questionas? Por que te negas, se os átomos – a primeira expressão física de tua existência – buscam na dualidade da atração, o amor, para formarem suas moléculas?
Nesse momento, ouço a voz do meu silêncio que me questiona:
– O que tu vês?
– Vejo ruas, vejo que aqui fora tudo está frágil: sentimento, computador, programa, almas de plástico. Vejo ainda mil beijos, cheiros e desejos, mas não sinto a verdadeira fragrância da alma. E por essas ruas os meus passos ganham vida.
São ruas desertas, ruas dos sonhos de buscadores do verdadeiro sentimento que galgam à única real ficção: “subestimar o Tempo”. Nesta metafórica caminhada, encontro um lago de águas cristalinas que excitam a minha sequiosa sede. Ao bebê-la, surpreendo-me com o sabor agressivo de lágrimas. Observo o sol, que a terra, em sua perfeita coreografia, o conduz ao encontro do crepúsculo, dando vida e liberdade às sombras. Nesse instante, diante do silêncio, no templo do meu ser, as lágrimas deságuam inundando o vazio dos meus olhos. Escorrendo em minha face, acariciando-a e, sem disfarce, eu choro. Ergo-me, então, ao infinito, numa contemplação ao Universo. E assim, as últimas sínteses de luz se entregam por vencidas à penumbra, privando-me de degustar o sabor do nefasto líquido cristalino. Meus passos levaram-me pelos distantes caminhos em busca do raro: a flor que queima semelhante ao fogo transformador da alquimia, decompondo os labirintos de minha ansiedade e, como prisma, desperta em mim a consciência psíquica do meu Ser, a buscar a quintessência da minha unidade, pois tudo vive numa eterna busca. A ilusão procura uma miragem como razão para as alucinações da vida, eu a persigo como a um oásis, porque preciso de suas sombras para proteger-me do ardente sol da solidão. O véu da noite cai sobre mim e o sol se curva à sua majestade. E, na predestinada busca do escurecer, surge o sol, semelhante a uma flor. Sinto-me na meia-noite de um novo dia, em que no templo do seu corpo brota a flor – portal de seu prazer – que se excita ao desabrochar as pétalas, seduzindo-me no ritual vício da vida. Então vem, deixa-me tocar no teu silêncio e, com carinho, beijar tua flor e sentir o néctar de tua vida. E, com a luz de teu ser, enaltecer o maior sentimento dos imortais... Imortalizando-me no teu sonho. Pois já não sei se o sonho é realidade desta existência, ou se tal existência é realidade de um sonho. Não importa; apenas vem; resgata-me dos meus pesadelos e leva-me até os teus sonhos... E não me acordes! Deixa-me viver neles, pois os meus se perderam nas neblinas de um acidente de percurso. Minha alma está despida e em meus desejos sinto a expressão de Deus. Envolve-me nos teus desejos e, por favor, deixa-me tocá-la, porque a minha saliva cobra de minha língua que acaricie a nobre arte que são as curvas do teu corpo. E com a habilidade de um oleiro, quero tocar a perfeita escultura dos teus seios; e meus lábios, sem nenhuma palavra, rompem os tabus do preconceito que tem criado o que chamam de pecado. Por favor, leva-me ao único destino dos meus desejos: a flor do teu sexo, princípio do teu prazer, portal da vida. Em meio aos nossos delírios e ansiedades, conspiraremos em um só desejo. Nesse momento, encaixo-me em teu ventre e, num ritmo frenético, perdemos o domínio. Somos apenas um, a dor se transforma em vício. Insisto, involuntariamente, em sair de mim para encontrar-me dentro de ti. Minha consciência se esvazia no processo intrínseco da transformação, minha mente viaja no espaço e no tempo para me encontrar na unidade de um orgasmo que, numa repulsão, desfaz as partículas subatômicas de minha existência, dividindo-me, levando-me à contínua e incansável luta de vencer a mim mesmo e encontrar, no teu interior, parte de mim: a vida – o ópio da continuação. Passam-se dias e meses e o templo do teu ventre me acolhe concebendo-me nesta primeira iniciação. A expressão de Deus nos fascina em cada momento da transformação. As ansiedades e a dor preparam o teu ser e corpo, te levando a rasgar o ventre, rompendo  limites da flor do teu sexo. E numa segunda iniciação, nascerei. Despertando com um choro e arrebentando o silêncio com um grito, o som da Vida. O impulso da inocência instintiva levou-me a procurar e acariciar os teus seios, buscando encontrar a nascente, fonte primária da vida, que fortalece o princípio desta minha breve existência, onde o tempo descortina, a cada momento, uma nova descoberta, e a fragilidade de meu corpo procura a proteção em teus braços. E o tempo me lapida, a cada momento na transformação da continuidade do sonho de Deus, levando-me a escrever, no livro silencioso do Universo, a poesia da vida – a arte da transformação, que nem mesmo a mais profunda reflexão consegue decifrar.
Enquanto despertava da profunda reflexão, diante de mim, o efêmero reflexo da paisagem transitória e seus elementos mostravam-me o quanto é vulnerável tudo a nossa volta. Naquele momento, senti leve mão repousar no meu ombro e uma voz calma que comentou:
– Mestre, por que estás envolvido em profundo silêncio?
– Estava pensando nos enigmas da vida e adentrei labirintos buscando desvendar mistérios.
– E quanto a ti, nobre andarilho, por onde andaste?
– Eu conheci o mundo, naveguei pelos oceanos e descobri povos, raças e costumes diferentes. Vivi paixões, amei e acredito que fui amado. Agora estou aqui, buscando o sentido da vida.
– Mestre, preciso fazer-te uma pergunta: De onde viemos e qual é a razão da vida e do livre arbítrio?
De súbito, fomos tomados por silenciosa pausa e, olhando para o céu, observamos a suavidade do vôo dos pássaros.
Ele questiona:
– Só os pássaros podem mostrar o verdadeiro sentido da liberdade?
– Vou contar-te uma lenda grega sobre todos os migrantes do Universo e uma fábula, a parábola que ilustra a razão da liberdade: “Em algum lugar distante dos limites de nossa consciência objetiva, onde o tempo se intercala ao espaço, sete luas se fixavam como jóias soltas no espaço de um céu, a subestimar nossa imaginação. E três estrelas incandescentes, semelhantes ao sol, regem a trajetória dos seres que têm um único objetivo: esclarecer o segredo da Vida. Os habitantes daquela enigmática civilização contemplam uma das estrelas que os alimenta com intensa luz de um conhecimento jamais compreendido pelos mortais. No meio daquele povo, um vidente dos sonhos fala a respeito de uma civilização que habita em um sistema solar alimentado por uma só estrela incandescente, a qual é chamada de sol. E para aquela civilização muitos imigram de várias partes do Universo, sendo levados pelo cordão umbilical da atração, semelhante à força gravitacional, a qual chamam de desejo. E assim, nesta viagem, todos perdem a noção da realidade e navegam em meio ao oceano biológico do desconhecido, sendo aprisionados ao verso da existência, seguindo a ordem que faz tudo mover-se em círculo. O nascimento é o fluxo primário dos que imigram para aquela civilização solar. Inevitavelmente eles se apegam em tudo à sua volta, até mesmo à sua forma física, acreditando ser a sua única realidade. O seu dia-a-dia move-se em círculo, em um amanhecer e anoitecer constantes, alienando os seus pensamentos a uma satisfação ilusória a que chamam de felicidade, prometendo-a encontrar, no que eles apontam como futuro, o sanar de seus medos e de suas ansiedades, sempre conflitando entre si, pois eles disputam espaços como espermatozóides movidos pela força desconhecida chamada desejo. Apenas choram as lágrimas de uma árdua trajetória onde os leva ao refluxo, final de uma trajetória biológica do círculo da existência. E assim, os imigrantes do tempo, levados pela causa e efeito, materializam  “o vale da morte”, com os seus desejos e medos, no paraíso azul – o planeta movido pela ordem elíptica em volta de uma estrela que chamam de sol. Eles são meros habitantes transitórios de uma realidade chamada Terra.”
E o vidente voltou-se para o pequeno grupo:
– Logo, a quarta lua estará em linha paralela à segunda estrela ao leste, será aberto o portal eclipse, onde todos os que foram escolhidos para migrar devem lembrar-se de que lá o ódio, o medo, a ilusória ambição já transcenderam as nuvens e aquele que amar corre o risco de ser crucificado, assassinado, simplesmente porque amou. Não importa, vão, ensinem que “a razão da Vida só se encontra quando conhecemos o amor”.
Agora ouçam a fábula da liberdade na linguagem dos elementos da Natureza:
“Um dia, um pássaro voava pelos céus, rompendo os limites da liberdade. Sendo tomado de um grande vazio, pousou numa árvore, lamentando-se. A árvore perguntou-lhe:
– Por que choras, pássaro? Por que te lamentas?
E o passarinho lhe responde:
– Tu já me deste o abrigo na sombra de tuas folhagens, os frutos e o suficiente para a minha sobrevivência; é o suficiente.
Não posso exigir de ti que me expliques a razão da liberdade, se tu não te moves para nenhum lugar.
E a árvore:
– Por que me subestimas, se através de ti eu cumpro a razão da minha existência? Tu levas as sementes dos meus frutos que te alimentam, semeando a minha continuação e dando liberdade à minha razão de existir. Tu não notaste que essa é a razão da tua liberdade? Voa! Leva-me a lugares mais longínquos e serei sombras, frutos e sementes da continuação!”
– Esta é a razão, meu amigo. A razão maior da liberdade é servir.
E ele, surpreso, questiona-me:
– É tão simples assim?
E com o olhar brilhando intensamente, fala-me:
– Viajei por lugares longínquos, vivi e aprendi muitas coisas e tive de voltar aqui para ouvir a simplicidade da tua sabedoria. Agora está claro para mim, a linguagem do Cosmo é desmistificar com simplicidade, o que para nós é inexplicável.
De forma impulsiva, ele apanha papéis e caneta, olha para mim e diz:
– Mestre, fala-me sobre a tua vida, sobre os teus pensamentos, pois escreverei e publicarei para que outros possam conhecer a tua sabedoria.
– Sobre a minha vida, filho, existe tão pouco a falar! Meus pensamentos não são meus pensamentos, mas sim a expressão de Deus. Entretanto, contar-te-ei uma história, a história de Donai. Um ser que, um dia, aqui viveu.
– Conta-me e a escreverei.

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