quinta-feira, 28 de julho de 2011

Comentário de Paulo Atto (Dramaturgo)

Carlos Reis busca na sua intensa aventura literária a descoberta da “fragrância da alma”, não apenas a revelação de uma química das palavras, mas, sobretudo sua alquimia, sua gênese, sua ontologia. Sua obra é dar vida e liberdade às sombras.
Alquímico, desmesurado, onírico, brilhante, soberbo, surpreendente: quaisquer adjetivos que se tente para abarcar autor e obra revelar-se-ão de pouca valia e não poderão traduzir a intensidade na qual se depara, quando são abertas as páginas deste livro. É bom saber de pronto que Carlos não nos poupa: intimida-nos e nos convida a tomar parte de sua torrente emocional mas, também, nos oferece o maná, nos dá os elementos para o sonho, a comida para a nossa cabeça, “nos descortina uma visão mais ampla do que há no mundo e em nós”. Há em Carlos, revelado através de sua poética, um “vício” de viver, uma teimosia em ser, uma ufania em desdizer o Nada sartreano, uma vontade que se faz potência e ato a todo instante.São palavras e imagens humanas, excessivamente humanas, que também nos atordoam num ritmo que perpassa toda a construção imagética do livro; portanto, poético e sugerente, o autor nos captura em sua atmosfera e nos faz pensar. Ele vai em busca da imprecisão de nosso Ser, em busca do centro do que é mais humano em nós e aí descobre, entre o espanto e a dor, que o nosso centro é um imenso vazio. Entretanto, a partir da lágrima de uma criança, é possível preenchê-lo com vida e sonho que, dialeticamente, transformam-se e se complementam. Na obra de Carlos, esta dualidade já não pode ser separada, como se uma já não pudesse existir sem a outra.A obra de Carlos Reis é, no fundo, o seu próprio existir como gente, como pensador e como escritor. Por isso, nos toca tanto, por isso é tão viva e escapa fácil do papel para as nossas mentes, e por esta razão nos enche de alegria, comoção e verdade. Na leitura, podemos, verdadeiramente, escutar “a voz do nosso silêncio”, mas lá estará Carlos compartilhando conosco mais um segredo: o sentido da vida não pode ser o caminho para nos tornarmos clandestinos de nós mesmos! Não apenas “conhece a ti mesmo” como disse o filósofo: “enfrenta a ti mesmo”, nos diz o mestre.Carlos não nos escreve; revela-se-nos, provoca desvelar-nos. Entrega-nos sua vida, porque uma vida que não pode servir a outros é uma vida inútil, sem sentido, vazia. Assim, o sentido de sua existência como homem das palavras se constrói também através delas e das lágrimas dos espermatozoides.É tarefa difícil escrever sobre Carlos Reis em poucas palavras, por isso o melhor é sabê-lo por suas próprias letras e idéias, genialmente derramadas em lágrimas de um Ser tão minúsculo.Eu também sonhei um dia que estaria folheando estas páginas e sonhando o sonho de uma eternidade humana no tempo, em que todas as lágrimas terão o seu consolo e serão enxugadas.

Paulo Atto 
Diretor teatral e dramaturgo

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